quarta-feira, 21 de abril de 2010

Resenha: Os Olhos Sem Rosto (1960) Georges Franju

Na primeira cena de Os Olhos Sem Rostos (Les Yeux Sans Visage, 1960), quando a câmera ilumina impressionantemente árvores aparentemente sem vida numa estrada isolada na noite, vemos que o filme entregará uma estética impecável. Rejeitado pela crítica na época de seu lançamento, ele ganhou espaço e prestígio com o passar dos anos, sendo hoje uma obra-prima absoluta do horror. O filme francês deve seu requinte ao fotógrafo alemão Eugen Schüfftans, que mergulha o filme num branco lindo de morrer impermeabilizado pelo preto junto aos cenários (principalmente a mansão do Dr. Génessier em seu interior) imponentes e sofisticados.

O roteiro fantástico narra a apavorante história de um cirurgião que se torna um assassino frio em série com ajuda de sua assistente. Com o desenrolar dos fatos, descobrimos que tudo isso teve início num acidente de carro que desfigurou o rosto de Christine, sua filha. Ele dirigia o carro e agora vive atormentado pela culpa desenvolvendo então, uma técnica de transplante de rosto, buscando desesperadamente reconstituir a beleza de Christine. Ele obteve êxito em sua assistente Louise, mas o rosto de Christine rejeita os enxertos, levando o médico a matar e mutilar belas jovens, fazendo com que as coisas saiam do controle. Para não levantar suspeitas, ele forja a morte da filha.

Georges Franju dá uma aula de terror, pois não se apóia em nenhum elemento típico do gênero. O rosto desfigurado de Christine só aparece uma vez, assim mesmo desfocado. Franju, muito sofisticado, se utiliza de artifícios invisíveis para criar sua atmosfera macabra. A máscara branca que esconde o rosto da menina, os latidos dos cachorros que são mantidos prisioneiros e outrora foram cobaias do cirurgião latindo incessantemente no porão também contribuem para momentos de gelar a espinha.

A glória do filme deu-se em 2004, quando a Criterion o lançou num DVD irreprochável, com imagens e o áudio restaurados de forma tão límpida que logo sonho com uma edição blu-ray pelo selo americano.

O golpe de mestre se dá quando os fatos deságuam inevitavelmente numa trama policial e o diretor dá corda para o noir se enforcar. Uma saída genial que, após assistir a uma obra assim, de final metafórico e duro de engolir, qualquer um morre feliz. Eu babei em cada quadro.


» Avaliação: 9.0

sábado, 17 de abril de 2010

Resenha: Apanhador Só (2010) Apanhador Só


A sensação que tive ao escutar o primeiro disco (precedido por EP's) do Apanhador Só foi de pura satisfação, algo raro em um disco de rock nacional. O álbum auto intitulado é delicioso aos ouvidos e empolgante com produção de Marcelo Fruet ("Como Num Filme Sem Um Fim", Pública, outro bom disco). Apanhador Só é primo distante de Los Hermanos (sempre uma referência honrosa) ou até mesmo Pública, mas isso é só pra se ter uma base do que estou falando já que a banda gaúcha segue um caminho próprio, buscando beleza harmônica e ela sempre chega.

Começa com "
Um Rei e o Zé" sendo apresentada pela bateria de Rodrigo Pacote. Música simples que flerta descaradamente (muito bem vindo esse flerte) com o samba. "Pouco Importa" é canção curtinha de 8 versos. Na verdade, uma das canções de rock que mais me arrebataram esse ano.

Destaco ainda "
Porta-Retrato", "Balão-de-Vira-Mundo", "Bem Me Leve". Aliás, o disco inteiro. Alexandre Kumpinski, parabéns.

Disco disponível de graça no site oficial da banda.
» Avaliação: 9.0

sexta-feira, 16 de abril de 2010

10 Discos Que Baixei Pela Capa (Parte 2)

Dessa vez o resultado não foi tão proveitoso, não descobri nenhum disco perfeito, mas o saldo final foi bastante positivo.

01 Copter (2008) Can't Help It

Começando com a faixa título curtinha, o Copter fez um disco descontraído que leva a musicalidade a sério. Destaque para Jimmy's Corner. No estilo do Arctic Monkeys.

» Avaliação: 7.0


02 Giraffes? Giraffes! (2007) More Skin With Milk-Mouth

Funciona por ser um EP de apenas 5 músicas. Gostei muito de... peraí, é complicado: I am sh(im)e[r] as you am sh(im)e[r] as you are me and we am I and I are all our together Our collective consciousness' psychogenic fugue. As canções têm melodias simples, não se deixe enganar, mas mergulhadas num math rock bem feito que as deixam aparentemente complexas.

» Avaliação: 7.5

03 As Tall As Lions (2009) You Can't Take It With You

Esse também valeu a pena. Rock alternativo que produz diferentes sensações aos ouvidos.

» Avaliação: 8.5




04 Sequence Pulse (2007) Play Both Ends Against The Middle

Japoneses conseguem harmonia perfeita entre banda de rock experimental pra fisgar o ouvinte na primeira faixa de um disco praticamente instrumental.

» Avaliação: 8.0



05 Superchunk (2009) Leaves In The Gutter

É outro EP de rock. 5 faixas (a última é uma versão acústica da primeira) que derrapam em alguns cantos no vocal desafinado de Mac McCaughan, mas Screw It Up é contagiante.

» Avaliação: 5.0



Álbuns disponíveis no audiogramas.
» Média de avaliações: 7.2

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Resenha: Roberta Sá (2009) Pra Se Ter Alegria (Ao Vivo no Rio)

Não há muito o que falar do disco ao vivo de Roberta Sá lançado em 2009, Pra Se Ter Alegria, gravado no Rio de Janeiro. Tem as melhores músicas dos três Cd's da moça "Sambas e Bossas" (eu o considero parte de sua discografia), "Braseiro" e "Que Belo Estranho Dia Pra Se Ter Alegria" e um lindo samba inédito "Agora Sim" (assinado por ela, Pedro Luis e Carlos Rennó). Vocal irretocável de uma cantora que arrebata corações por onde passa, tanto que seu Braseiro de 2005, quando não é incluído em listas de melhores daquele ano, é apontado como o melhor. Para o DVD, participações nos extras: dois duetos, com Ney Matogrosso em "Peito Vazio" e com Chico Boarque de Holanda em "Mambembe". Apesar de não trazer nada de novo às músicas que foram regravada nesse projeto, Roberta esbanja talento, simpatia e técnica vocal. Vale a pena ouvir os gritos da galera toda vez que ela (en)canta.

» Avaliação: 9.0

terça-feira, 13 de abril de 2010

Resenha: Thiago Pethit (2010) Berlim, Texas

Sinceramente, se alguém muito envolvido em música chegar a mim e disser que não gostou do disco de Thiago Pethit, sou capaz de lhe dar um soco.

Produzido por Yury Kalil, Berlim, Texas foi justamente bem recebido pela crítica e seu cantor comparado com bom gosto a Tiê que também lançou um disco brilhante, Sweet Jardim no ano passado. Muito também foi dito sobre a influência de tangos e cabarés de seu primeiro trabalho que está fotografado/impresso/cravado/explícito em "Voix de Ville", mas isso foi divulgado em seu site oficial e não teria sido lembrado à reveria.

A primeira canção "Não Se Vá" me lembrou muito a musicalidade de Fun. na segunda metade, com acordes viciantes em piano, arrematados com um tristonho arranjo de cordas. Acho que é minha preferida. O disco abosultamente independente (Thiago tirou o escorpião do bolso e bancou tudo) executa 11 faixas que exalam melancolia em três idiomas: português, inglês e francês. Há ainda um dueto com Hélio Flanders do Vanguart em "Forasteiro".

Por fim, Berlim, Texas afirma Thiago Pethit como um compositor de alto nível que começou em 2008 com o bom EP Em Outro Lugar, uma carreira que se acabasse hoje, agora, seria inesquecível por muitos anos.

» Avaliação: 8.5

domingo, 11 de abril de 2010

Resenha: Nick & Norah: Uma Noite de Amor e Música (2008) Peter Sollett

Mais do que outro bom exemplo para o cinema adolescente, Nick & Norah's Infinite Playlist só não é muito maior por conta de um único personagem que ganha mais atenção do que merece, fazendo o filme cair em clichês irritantes do gênero.

Nick & Norah também é declaração de amor aberta à cidade de Nova York que explode na tela cheia de luzes de todas as cores e tamanhos e planos panorâmicos, embebidos de uma trilha sonora arrebatadora. O que dizer do tema interpretado por The Real Tuesday Weld "
Last Words", ou de "Xavia" do The Submarines? Canções perfeitas, que são a base do filme que se passa todo numa única noite. Enquantos os personagens procuram desesperadamente por Where's Fluffy (nome sugestivo), banda-mistério que é o pivô de tudo, somos convidados a assistir dois jovens se apaixonarem de maneira poética. Claro que não chega perto do que Richard Linklater fez em Antes do Amanhecer, mas é um brado de alegria num universo tão estereotipado e meticulosamente fabricado que tem feito a cabeça dos nossos adolescentes.

Peter Sollett é displicente no amadurecimento da trama, mas tudo é conduzido com tamanha descontração que o filme acaba transbordando estofo. Michael Cera distraído, Kat Dennings no ponto e Ari Graynor zoada (sua personagem foi injustamente criticada) formam um trio irresistível somados a outro, os amigos gays de Nick, são a fórmula do sucesso do filme de Sollett.

Seu ponto crítico, como dito no início, é Alexis Dziena que, coitada, interpreta a ex insuportável de Nick. Não satisfeita de quase sabotar o filme com seus estereótipos falidos ela consegue mais atenção do que deveria (acho que uma coisa tem a ver com a outra).

Tenho o DVD e assisti ao filme mais do que deveria. Sou um admirador do universo indie e defensor público dos adolescentes fracos e oprimidos pelos que só sabem incinerá-los.


» Avaliações:
Filme: 7.5
Trilha Sonora: 8.5

Resenha: Not Fade Away: The Complete Buddy Holly (2009) + Nirvana - Bleach: Deluxe Edition (2009)

Se antes só podíamos agradecer a Buddy Holly por sua humilde "contribuição" no surgimento do nosso Rock 'N Roll de cada dia, a partir do ano passado esse erro foi corrigido com o lançamento de Not Fade Away: The Complete Buddy Holly pelo selo Hip-O-Select. Uma compilação extraordinária com todos registros em estúdio de Buddy durante seus breves 3 anos na música. O song-book coleciona mais de 150 faixas incluindo registros raros e fragmentos de segundos. Enfim, está tudo aqui, agora além de agradecer podemos usufruir do supra sumo da carreira daquele que ao lado Elvis Presley, fincou com coragem numa américa preconceituosa dos anos 50 (eles de novo) o que hoje chamamos (e amamos) de rock. Essencial.

» Avaliação: 10.0

Nos anos 80, para criar mais uma vertente no rock, sugiu o Nirvana com uma veracidade absurda. Seu primeiro disco Bleach, clássico do universo grunge que foi lançado em 1989 completou 20 anos em 2009 com o relançamento em Deluxe Edition. No segundo disco tem o registro ao vivo do 9 de fevereiro de 90 em Portland, Oregon onde o instrumento é estraçalhado no fechamento da gravação. Belo trabalho de remasterização de uma banda que trouxe novos ares ao rock e ainda revelou Kurt, nosso problemático vocalista filho da geração perdida da metade da década sessentista e ícone que, como muito bem descreveu Ira Robbins sobre Nevermind de 1991 "testou a tolarância da música alternativa." Teve suas entrevistas dadas à Rolling Stone lançadas em uma compilação em 1997 que inclui ainda resenhas dos álbuns. Com 12 anos de atraso (novidade!) chegou ao Brasil também no ano passado denominada: Cobain Pelos Editores da Rolling Stone. Capa linda.


» Avaliação: 8.0